Nesta foto obtida em 28 de março de 1993 vemos alguns dos fragmentos do núcleo do Cometa SL9. (U. Arizona, Observatório de Kitt Peak)

 

No período de 16 a 22 de julho de 1994, mais de 21 fragmentos do núcleo do que era o Cometa Shoemaker-Levy 9 (D/1993 F2) se chocaram com o planeta Júpiter. Anteriormente não se havia observado a colisão de corpos no Sistema Solar. Os efeitos dos impactos dos fragmentos na atmosfera de Júpiter foram espetaculares e muito acima do que se era esperado.

O que aconteceu com esse cometa para que ele tivesse um fim tão espetacular?

O cometa quando foi descoberto, em uma foto tirada em 24 de março de 1993, por Carolyn Shoemaker, Eugene M. Shoemaker e David H. Levy, já apresentava uma aparência diferente: um trem de fragmentos em vez de um único núcleo (veja a fotografia). Depois de efetuarem vários cálculos os cientistas concluiram que o mais provável que tenha acontecido foi que o cometa, em 8 de julho de 1992, passou a apenas a 45.000 km da superfície de Júpiter, já dentro do Limite de Roche. Ao passar tão próximo do planeta seu núcleo sofreu a ação de uma tremenda força de maré e como seu núcleo não possuia uma massa uniforme, rompeu-se em vários fragmantos. Assim, quando foi descoberto já estava fragmentado e executava uma órbita em torno de Júpiter. Especula-se também que era um cometa de curto período com afélio dentro da órbita de Júpiter e periélio no anel de asteróides. Imagina-se que por volta de 1970 foi desviado de sua trajetória, entrou em órbita de Júpiter e essa nova trajetória o levou a passar muito próximo do planeta. Essas passagens nunca haviam sido tão próximas do planeta como em 1992. Originalmente seu núcleo deveria ter por volta de 5km de diâmetro.

O Limite de Roche é a distância limite que um corpo celeste mantido coeso apenas pela sua força gravitacional poderá se aproximar de um outro sem se fragmentar devido à ação da força de maré que o segundo corpo exercerá sobre ele. Quando esse limite fôr ultrapassado o corpo se desintegrará. Este têrmo passou a ser utilizado em homenagem ao astrônomo Francês Edouard Albert Roche (1820-1883) que em 1848 calculou teóricamente este limite. Isso foi o que aconteceu com o Cometa Shoemaker-Levy 9. Ao ultrapassar o Limite de Roche de Júpiter, que é de 175.000 km se esfacelou e os fragmentos entraram em órbita de Júpiter em trajetórias de colisão com o planeta.

 
Fotografia do Cometa SL9 tirada em março de 1992. Note a existência de um trem de fragmentos em vez de um núcleo. (JPL. NASA)
 
Foto mostrando o trem de fragmentos do cometa SL9 e detalhes de alguns destes. (JPL. NASA)
 
Neste desenho vemos como os fragmentos se chocaram com o planeta Júpiter. (Stephen F. Austin State U.)
 
Nesta foto mostramos as letras que foram nomeados cada um dos fragmentos do núcleo do Cometa Shoemaker-Levy 9.

 

Infelizmente, como mostra a figura acima, os fragmentos do cometa se chocaram do lado onde era noite em Júpiter e, assim sendo, não puderam ser observados da Terra no momento do impacto mas sim alguams minutos depois.

A energia liberada na atmosfera de Júpiter pelo impacto desses corpos foi enorme, muito maior que a energia de todos os artefatos nucleares existentes na Terra. A massa dos fragmentos devem variar de 10^12 a 10^14 kg e a velocidade em que se chocaram com o planeta foi de 60 km/s.

 

Imagem no infra-vermelho (3,5 micrometros) de Júpiter obtida pelo Telescópio Keck em 17 de julho de 1994. Ela nos mostra a brilhante calota polar Sul, a mancha vermelha no alto à direita e os restos do impacto dos fragmentos A (à direita) e C (à esquerda). (James Graham, Keck Obs.)

Como foram os impactos dos fragmentos do Cometa SL9 com Júpiter?

O primeiro impacto ocorreu em 16 de julho de 1994, quando o fragmento A do núcleo se chocou com a velocidade de 60km/s com o hemisfério sul de Júpiter. O instrumental da espaçonave Galileo, situada a 1,6 UA do ponto de impacto observaram a formação de uma bola de fogo cuja temperatura atingiu 24.000 K. Lembremos que a temperatura no topo das nuvens de Júpiter não é maior que 130 K. Após a explosão, sua expansão e resfriamento foram bastante rápidos de tal forma que 40 segundos após o impacto a temperatura já havia baixado para cerca de 1.500 K. Com a explosão formou-se um cogumelo que se elevou a mais de 3.000 km acima do topo das nuves, constituido de material do fragmanto do cometa e da alta atmosfera de Júpiter. Logo após o primeiro impacto os observadores da Terra viram o aparecimento de uma grande mancha escura na atmosfera do planeta que tinha 6.000 km (que corresponde ao raio da Terra). Esta seqüência de eventos, com maior ou menor intesnidade ocorreu em cada um dos impactos.

Nos seis dias seguintes foram observados 21 impactos,sendo que o maior ocorreu no dia 18 de julho, quando o fragmento G se chocou. Este impacto criou uma mancha escura com mais de 12.000 km de diâmetro, e estima-se que tenha liberado uma quantidade de energia equivalente a 6.000.000 de megatons de TNT. Os dois impactos que aconteceram em 19 de julho, com 12 horas de diferença, deram origem a marcas semelhantes à criada pelo impacto do fragmento G. Os impactos continuaram até 22 de julho, quando o fragmento W se chocou com o planeta.

Como previsto, as colisões geraram enormes ondas sísmicas que varreram o planeta com velocidade de 450 km/s e foram observadas duarante duas horas, após os grandes impactos. As cicatrizes dos impactos puderam ser vistas em Júpiter vários meses após os impactos.

A temperatura da atmosfera, nos locais de impacto, voltaram a seus niveis normais em menos de uma semana após os impactos. Com relação à composição química, muito embora tenha sido detectada bastante água nas regiões de impacto, esperava-se detectar muito mais. Isto significa que: ou a camada de água que pensa-se existir logo abaixo das nuvens é mais fina que o previsto, ou que os fragmantos do cometa não penetraram muito na atmosfera de Júpiter.

Desde o impacto do SL9 foram observados dois cometas bem pequenos orbitando Júpiter. Isso evidencia o fato de que o planeta mais maciço do Sistema Solar pode fácilmente capturar cometas quando estes passarem pelas suas proximidades. Os cometas capturados executarão órbitas bastante instáveis ao redor do planeta, o que os lavará a se chocarem com Júpiter. A probabilidade da ocorrência de impacto de pequenos cometas com Júpiter é estimada como sendo de dois por século e a probabilidade do impacto de um cometa com as dimensões do SL9 é de uma a cada mil anos.

 
Foto obtida em 18 de julho de 1994 mostrando os restos do impacto do fragmento G na atmosfera de Júpiter. (HST)
 
Nesta foto obtida pelo Observatório McDonald no infra-vermelho (2,12 micrometros) vemos os restos do impacto dos fragmentos A, E/F, H e D/G. (McDonald Obs.)

Várias perguntas a respeito desse espetáculo ainda ficaram por responder. Por exemplo:

Qual era a dimensão dos fragmentos do cometa? Será que eram grandes, com alguns quilômetros de diâmetro ou de apenas centenas de metros?

Antes de explodir, quantos quilômetros os fragmentos penetraram na atmosfera de Júpiter ? Esta medida nos indicaria algo mais a respeito da constituição dos fragmentos.

Seriam os fragmentos constituidos por um único ou por varios pedaços muito próximos? Caso o fragmento fosse constituido de um único pedaço grande e sólido ele penetraria mais na atmosfera. Caso fosse um aglomerado de pequenas rochas cairiam como uma chuva de meteoros na atmosfera com pequena penetração. Os resultados espectroscópicos preliminares mostraram que como pouco material da baixa atmosfera de Júpiter emergiu os fragmentos não penetraram muito.

O que causou o aparecimento das enormes manchas negras na alta atmosfera de Júpiter? Esperava-se que as manchas fossem desaparecer em poucos dias mas, em alguns comprimentos de onda permaneceram visíveis durante meses e até mesmo um ano após os impactos.

Tão incrível também foi o aparecimento de manchas escuras no hemisfério de Júpiter onde não cairam os fragmentos, o hemisfério Norte. Estas manchas, detectadas no infra-vermelho, provávelmente foram geradas pela circulação do material na atmosfera do planeta, sobre a qual pouco sabemos.

 

 

Esta imagem, tirada em 21 de julho de 1993, nos mostra a atmosfera de Júpiter no ultra-violeta (2.550 Angströms) após ter sido atingida por vários fragmentos do Cometa Shoemaker-Levy 9. Ela foi tirada 2,5 horas após o impacto do fragmento R. O impacto dos outros fragmentos que cairam antes deste, localizados nesta face do planeta também podem ser vistos. As manchas neste comprimento de onda são pretas porque devido aos impactos uma grande quantidade de poeira foi projetada na estratosfera de Júpiter e essa poeira absorve a luz solar. Estudando o comportamento destas manchas os cientistas poderão estudar os ventos nessa camada da atmosfera. O ponto negro acima do Equador de Júpiter é o seu satélite Io. (HST/ NASA)

 

Esta página foi revista e atualizada em junho de 2005.

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